Artigo: A pessoa sensata não acumula tesouros para si, Dom João Carlos Seneme, css, Bispo da Diocese de Toledo

O Evangelho deste domingo (31/07) nos ajuda a refletir sobre nossa relação com os bens materiais (cf. Lc 12, 13-21). Uma das necessidades básicas do ser humano é a segurança. Ele busca apaixonada e necessariamente uma base estável sobre a qual possa repousar sua própria existência. O verdadeiro equilíbrio está em conviver com os bens materiais e dar-lhes o devido valor: são coisas passageiras e fugazes que devem ser usadas como meios para o bem viver, mas que não garantem o sentido pleno da existência. O fundamento seguro da existência humano é somente Deus. Nele o uso das coisas, em si se tornam boas, adquirem sentido. Não serão mais um instrumento de divisão, mas de comunhão. O ser humano não guarda os bens egoisticamente para si, mas os transforma em “sinal” de amor.

Na parábola do “rico insensato”, São Lucas procura dar respostas ao apelo da primeira leitura: “Tudo é vaidade. Que resta ao homem se tudo é sofrimento”? O apego às riquezas e uma vida dedicada só a elas colocam em perigo a verdadeira vida cristã e o caminho em direção à vida eterna.

No caminho de Jerusalém, Jesus é abordado por dois irmãos que disputam uma herança e pedem que ele intervenha. Jesus afirma que não faz parte de sua missão se envolver em questões de direito familiar e tomar posição por um irmão contra outro. O que estava em causa na questão era a cobiça, a luta pelos bens, o apego excessivo ao dinheiro. Quantos casos conhecemos de famílias destruídas por causa de herança e divisões de bens materiais! Jesus enfatiza que a busca desenfreada por bens materiais torna-se idolatria porque ocupa o lugar de Deus e nos distancia da vida plena.

Em seguida conta a história de um homem que coloca o sentido de sua vida em acumular bens materiais. Esse homem representa, aqui, todos aqueles cuja vida se resume em acumular sempre mais, esquecendo tudo o resto – inclusive Deus, a família e os outros; representa todos aqueles que vivem uma relação de apego exclusivo aos bens materiais. Fizeram deles o seu “deus” pessoal e se esqueceram que eles não podem dar sentido à existência.

As riquezas, os bens materiais, não são um mal em si, mas se tornam empecilho para a vida quando se transformam no único motivo para viver. Por isso a Palavra de Deus sempre condenou o acúmulo excessivo de riqueza, porque ela pode escravizar e nos tornar egoístas e alheios ao que acontece ao nosso redor. Todo o bem material deveria ser um meio para o bem viver e, principalmente, na transformação da realidade. O rico acumulador da parábola só pensa em si mesmo; em sua vida não há lugar para Deus e nem para os irmãos. Por isso ele é chamado de louco e insensato.

São Lucas chama a atenção porque os bens materiais podem se tornar um obstáculo ao Evangelho: os bens têm o poder de monopolizar o coração humano. “Buscai, pois, o seu Reino” (Lc 12,31) é a advertência do Evangelho. O reto uso dos bens indica acolhida ao Reino. Uma relação ambígua e perigosa com os bens materiais podem ser empecilhos para o Reino de Deus. Que o Senhor nos livre da ganância e da tentação de possuir bens e riquezas, sobretudo quando causam o empobrecimento e a exploração de outras pessoas.

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