Artigo: Com as mãos de Maria e o coração de Marta – Dom João Carlos Seneme, css, Bispo de Toledo

A hospitalidade é o tema que conduz a liturgia da Palavra neste domingo, dia 17 de julho.  O hóspede é dom que recebemos. É o que acontece com Abraão ao receber três desconhecidos que apareceram na entrada de sua tenda. O mesmo se dá quando Jesus é acolhido na casa de Marta e Maria.

O evangelista São Lucas inicia o episódio de Marta e Maria (Lc 10,38-42) dizendo: “Prosseguindo viagem”. O evangelista está narrando a viagem de Jesus a Jerusalém onde ele realizará a sua missão de salvação em favor da humanidade. Em Jerusalém ele será “elevado” na cruz. O caminho de Jesus teve início com a rejeição dos samaritanos (Lc 9,52-53). Hoje o evangelho narra que, durante a viagem, Jesus entra em uma casa de amigos que, contrariamente aos samaritanos, o acolhem e lhe oferecem hospitalidade.

O tema da hospitalidade na Bíblia sempre remete ao relacionamento entre a humanidade e Deus; a iniciativa é sempre de Deus que vem ao encontro da humanidade. Em São Lucas a visita de Deus se dá através de Jesus Cristo. A visita de Deus transforma a vida humana, ela se torna mais fecunda e repleta de alegria.

É neste contexto que pode ser inserida a entrada de Jesus na casa de Marta e Maria. As duas acolhem o hóspede com solicitude motivada pela fé. A relação de cada uma com Jesus é diferente, porém igualmente motivada pelo amor. Maria o acolhe como discípula, colocando-se aos pés do mestre. Marta manifesta o discipulado ao se dedicar em preparar a casa, cuidar da comida, preocupada em acolher bem o hóspede. É injusto ler as palavras de Jesus como reprimenda a Marta. Houve um tempo em que se interpretava a atitude de Marta como ação e a de Maria como contemplação, privilegiando uma em detrimento da outra. As atitudes das duas mulheres revelam modos de seguimento. O que Jesus ressalta que há um tempo para servir e um para ouvir. Naquele momento Maria escolheu a melhor parte, ela deu prioridade em ouvir o ensinamento do mestre.

As atitudes de Marta e Maria não são equivalentes. Maria, colocando-se aos pés de Jesus, escolhe que é mais importante ouvir o que Jesus tem para dizer, ela quer estar com ele. Marta, ao contrário, oferece uma hospitalidade inquieta, agitada, dispersa. Ela quer servi-lo da melhor maneira possível e esquece que o melhor é estar com ele. O seu modo de agir recorda aqueles que se empenham tanto em fazer para Deus e a falar de Deus que não têm tempo para falar com Deus.

Deus visita a humanidade, visita cada ser humano. O que se exige aqui é a capacidade de discernir o momento e reconhecer a presença de Deus e escolher o que é mais importante naquele momento. A atividade e a dedicação de Marta valem somente se é consequência da contemplação de Maria. Precisamos das mãos de Marta e do coração de Maria para que, sentados aos pés de Cristo, sejamos operários incansáveis do seu amor.

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