Artigo: Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Não sejas incrédulo – Dom João Carlos Seneme, css, Bispo de Toledo

Neste domingo (24/04) celebramos o “Domingo da Misericórdia”, instituído por São João Paulo II; o dia em que Deus vem mais uma vez ao encontro da humanidade que tateia na fé, que necessita de sinais para crer: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Não sejas incrédulo, mas fiel”. A mensagem pascal da vitória de Jesus sobre a morte é apresentada no Evangelho em dois momentos, distantes oito dias um do outro.

O primeiro acontece “ao anoitecer do dia, o primeiro da semana” e inicia com a descrição do lugar onde os discípulos se encontram. Jesus está ausente e as portas estão fechado devido ao medo dos judeus. A porta é um símbolo do sentimento que invade os discípulos. A porta é uma fronteira: ela permite o encontro, a partilha e o confronto, porém é também sinal de fechamento, medo do desconhecido. Os discípulos se encontram nesta situação de fechamento; eles não admitem confronto, porque não aceitam os riscos.

O fato de estarem juntos no mesmo lugar reflete uma dimensão eclesial: uma comunidade fechada que sente medo do mundo hostil. A atmosfera é pesada; ela só é iluminada com a chegada de Jesus. Quando Jesus chega tudo se ilumina e se movimenta. Não é importante a aparição, mas sua chegada. Ele não se impõe, mas se propõe: os discípulos o reconhecem pela fé. Jesus chega e as portas se abrem, não somente porque os discípulos são enviados ao mundo (“como o Pai me enviou, eu vos envio”), mas sobretudo porque recebem como dom a possibilidade de uma nova relação com o Pai e de um relacionamento dinâmico com o Espírito (“recebam o Espírito Santo”).

O segundo momento acontece “oito dias depois”. Ele revela as dificuldades do discípulo que não consegue crer apenas através do relato dos outros. Tomé precisa ver, tocar para acreditar: ele não confia no testemunho dos outros. Há pessoas que precisam do encontro pessoal para crer, para deixar que o Ressuscitado ilumine sua vida para que possa se tornar um discípulo marcado pelo dinamismo que vem da força do Ressuscitado.

Jesus acolhe o medo que faz parte de nossa bagagem humana, mas deseja que aconteça a superação: o medo deve ser superado pela fé. Jesus espera o tempo de cada um, pois todos têm a oportunidade de dar sua resposta. Sempre haverá um novo convite. O cristão não pode se negar a fazer o percurso da fé. Não é suficiente tocar o corpo de Jesus, colocar a mão nos ferimentos (estigmas) apertos para acreditar. Como também não é suficiente declarar-se cristão e observar todos os mandamentos com garantia da fé. A fé é dom que vem de Deus; é um percurso que abrange a vida inteira e que atingirá um momento em que não serão necessárias provas, toques, olhares: “acreditei mesmo sem ver”!

O dom do Ressuscitado é a paz. A paz que Cristo deseja para nós é reconhecer que toda pergunta já recebeu a resposta no dom de sua vida por nós. Tomé é convidado a sair como Abraão, porque a fé não é fé se se busca a si mesmo. “Ide e anunciai”. Onde? Em todos os lugares: na Galileia, Samaria, Jerusalém, Roma, em Toledo, no cenáculo na estrada de Emaús. Em todos os lugares onde o ser humano armar a sua tenda, ali acontecerá sua jornada de dificuldade e aventura, onde Ele parte o pão, constrói sua cidade, chorando ou cantando, sorrindo ou murmurando.

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