Artigo – O feminino é ouro, por Lara Beatrice Biezus

Iniciamos março, o segundo mês dedicado às mulheres marcado pela pandemia. Janela para os muitos apelos para o mundo olhar para o feminino. Convidamos para eventos on line, palestras e encontros, mais ou menos formais, até para brinde ou cafezinho virtual. Mesmo privadas do contato pessoal e do acolhimento tão importante para nós, insistimos em lembrar ao mundo que temos direitos violados. Sofremos violência de várias formas. O desrespeito cultural enraizado é a razão das desigualdades na progressão de carreira e nos salários. Não podemos falar nem ser ouvidas. Compete a nós insistir na defesa da gama de direitos que precisam ser bradados para que sejam exercidos. Nossa maior espectadora é a própria mulher, que ainda precisa ser mobilizada.

Afinal, de que serve um direito não exercido senão uma grafia fria pregada num livro grosso? Muitas mulheres desconhecem seus direitos, as formas de violação, e os mecanismos legais e sociais que podem usar para clamar por apoio e justiça. Existem instituições estabelecidas para mobilizar e apoiar as mulheres. Em Palotina especificamente, o Ministério Público Estadual, o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, a Assessoria da Mulher, a Comissão da Mulher Advogada da OAB/PR e os órgãos da Secretaria Municipal da Assistência Social. Mobilizando as mulheres nós conscientizamos a sociedade, pois somos nós que na maior parte das vezes criamos as filhas e os filhos, dentro ou fora do casamento. Filhas e filhos são alunos da vida.

O fato é que temos o ouro na mão lhe damos pouco valor. Valorizamos mais o que queremos e menos o que temos. Em tempos de pandemia, o tesouro é tão obvio que nem nos damos conta. O “feminino” é comportamental e é mental, está na consciência. Existem características mais naturais às mulheres. É mais fácil para uma mulher ser colaborativa, solidária, adaptativa, flexível, resistente, maleável, criativa. Vários componentes da resiliência, da capacidade de sobreviver sem agredir, são mais naturais às mulheres. É feminino inovar em meio às dificuldades, achar novas soluções para problemas antigos e para o turbilhão de crises e emergências. É da nossa índole proteger, cuidar, aprender com a dor, acolher, chorar, sofrer e renascer.

Repito: são tendencias naturais do “feminino”, inerentes à mulher e àqueles que nascem homens, mas se percebem mulheres. A questão é que este conjunto de características continuam sendo fundamentais para a sobrevivência nestes tempos bicudos. Ser solidário é compreender o sofrimento de quem está adoentado ou recluso. Acolher, cuidar, arrefecer, dar colo, mesmo através das telinhas.

Saúde mental depende da capacidade de adaptação, da habilidade de transformar-se conforme as situações se apresentam. Na pandemia, adaptar-se é tão necessário quanto o oxigênio nas UTIs. Usar máscara. Ter o cuidado de treinar e praticar o distanciamento social. Usar álcool gel. Estar pronta para súbitos decretos e leis, e calcular o impacto que terão no nosso núcleo familiar, social e de trabalho. A dificuldade maior da pandemia é o impacto direto na vida social e na nossa percepção do que é ser social.

Nunca precisamos tanto do “feminino”. A pandemia nos mostrou que essas características mentais e comportamentais femininas nunca foram tão necessárias e importantes para a sobrevivência do planeta. Educar filhas e filhos para captar, entender e seguir normas não é privilégio da mãe, nem da mulher. Mas é parte da nossa característica de proteção e cuidado, de emoção e carinho. Precisamos usar justamente esta nossa percepção da realidade para modificar nossos comportamentos, que possam ser inadequados e contribuir para manter aberta a torneira da qual jorra a disseminação incontrolável do coronavírus.

Portanto, no mês da mulher, o convite é para entendermos o “feminino”. Respeitar e propagar nossa natureza. Tecer uma teia de colaboração, compreensão e civilidade.  E assim criar um plano, abrir um caminho e enxergar soluções para os problemas que estão aí, à nossa frente, de uma pandemia que só piora. Através de nossa natureza feminina é que podemos desenvolver resiliência, a resistência em tempos de dificuldades, que leva à sobrevivência. Manter-se em pé em tempos de guerra, tirar lições dos tempos difíceis e renascer diferente, adaptado. Agora, aqui, sem mais tardar.

E o que vem pela frente? Podemos ter certeza de que depende de nós mesmas no que nos transformaremos após esta dificuldade, qual parte de nós estará renascida ou enrijecida. Cultivar o “feminino”, além das vacinas, é o que pode nos ajudar a ficar vivas, saudáveis, cuidando de quem amamos. Feliz Dia da Mulher!

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Lara Beatrice Biezus é advogada, diretora Executiva do Programa Oeste em Desenvolvimento, Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (CMDM), representante da Subseção de Palotina junto à Comissão da Mulher Advogada da OAB/PR (CMA) e Coordenadora da Caciopar Mulher­

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